Ciência, auto-organização, Taz e outras coisas.....
Tenho me interessado pelas idéias de Steven Johson! vale a pena....
"Consciente Coletivo", copyright Folha de S. Paulo, 18/01/04
"Indeciso sobre o assunto de seu livro (‘Estava entre a ciência do cérebro e a história do urbanismo’), o escritor Steven Johnson ganhou um mesmo livro sobre mapas de cidades antigas de duas pessoas diferentes. A coincidência chamou ainda mais atenção quando se deparou com a imagem do mapa de Hamburgo, na Alemanha, em 1850, ‘que parecia demais o cérebro humano’.
‘Quando o vi, pensei instantaneamente: talvez deva fazer um livro que pudesse ser cidades e cérebros’, conta Johnson, explicando seu ‘Emergência - A Dinâmica em Rede em Formigas, Cérebros, Cidades e Softwares’. ‘Não estava certo de qual conexão era aquela, mas tinha uma forte sensação que havia algo muito rico nisso’, diz.
E como havia. Pelo segundo livro de Johnson, assistimos a pesquisadores de áreas tão diferentes quanto biologia, urbanismo, neurologia e eletrônica descobrindo, maravilhados, que sistemas complexos como formigueiros, cidades e o cérebro humano se auto-organizam sem que haja líder ou plano pré-definido. Em busca da ‘ciência da auto-organização’, Johnson traça paralelos entre a história das cidades, o comportamento de fungos, a inteligência artificial, o mercado de seda em Florença, as colônias de formigas e o site Slashdot.org.
Ele descreve o fenômeno que batiza o livro, que observa pequenos indivíduos em atividades simples guiarem, inconscientemente, o comportamento macro de coletivos formados por esses seres, sejam formigas ou softwares de reconhecimento de padrão.
Assim, descobre que a natureza não trabalha com líderes e descreve o conflito entre a lógica vigente e a emergência como sendo o contraponto entre sistemas ‘top-down’ (de cima para baixo, em que todos obedecem a hierarquias) e ‘bottom-up’ (de baixo para cima).
Traçando paralelos e buscando novos padrões, Johnson passa por campos científicos novíssimos e completamente alienígenas para o leitor médio, como biomatemática, morfogênese e ciência da complexidade. Mas seu grande trunfo é mastigar esses bichos-de-sete-cabeças em uma linguagem agradável e texto fluido, citando pelo caminho referências pop, como o game ‘The Sims’ ou a história da computação.
Formado em semiótica e literatura inglesa, Johnson também é autor do livro ‘A Cultura da Interface’ e foi editor da festejada revista online sobre comportamento eletrônico ‘Feed’, que encerrou suas atividades em 2001 e ameaça ‘voltar à rede na forma de arquivo dia desses’.
Folha - O que é ‘emergência’?
Steve Johnson - ‘Emergência’ é o que acontece quando várias entidades independentes de baixo nível conseguem criar uma organização de alto nível sem ter estratégia ou autoridade centralizada. Você pode perceber esse comportamento em várias escalas: na forma como colônias de formigas lidam com o complexo gerenciamento de tarefas sem que haja uma única formiga no comando; na forma como bairros se formam sem um planejador urbano.
Folha - Essa conexão sutil entre vários níveis de organização já era algo de que você já suspeitava ou houve algum tipo de ‘revelação’?
Johnson -É uma história engraçada. Vinha tentando decidir sobre o que escrever em meu próximo livro e estava entre a ciência do cérebro e a história do urbanismo. Não conseguia decidir qual dos tópicos era mais interessante. Por coincidência, ganhei duas cópias de um livro maravilhoso, cheio de mapas de cidades antigas, uma do meu pai e outra de meu melhor amigo -e esse livro tinha um mapa de Hamburgo que parecia demais o cérebro humano. Quando o vi, pensei instantaneamente que devia fazer um livro que pudesse ser cidades e cérebros. Não estava certo de qual conexão era aquela, mas tinha uma forte sensação de que havia algo muito rico nisso.
Folha - Como nosso comportamento reage ao surgimento do pensamento coletivo consciente?
Johnson -Bem, nós gostamos de impor os velhos modelos centralizados a sistemas descentralizados -por ser um pouco mais confortável, acho. Por exemplo, uma das lições do 11 de Setembro foi a elasticidade essencial de sistemas descentralizados, como as cidades. Uma das coisas mais impressionantes foi que Manhattan levou um golpe inacreditável na região mais próxima de ser um centro e, a 20 quarteirões dali, a cidade funcionava perfeitamente, no próprio dia do ataque.
As pessoas observaram essa elasticidade e queriam explicá-la usando linguagem centralizada, por isso todos disseram como o prefeito tinha sido tão inspirador. Mas realmente inspiradora era a estrutura descentralizada de uma cidade grande -foi isso que tornou a recuperação possível.
Folha - Você lista Engels, Darwin, Adam Smith e Alan Turing como pensadores de uma ciência que não existia em seu tempo (a ciência da auto-organização). Poderia citar outros nomes mais recentes?
Johnson - Eu incluiria alguns teóricos de rede, como Steven Strogatz -autor de um novo livro, ‘Sync’- e Duncan Watts, que escreveu ‘Six Degrees: The Science of a Connected Age’ (‘Seis Graus: A Ciência da Era Conectada’). E as pessoas que, como Stuart Kauffman e John Holland, desenvolveram a teoria da complexidade nos anos 70 e 80.
Auto-organização envolve web e política
Folha - O ser humano está se tornando menos resistente ao novo?
Steve Johnson - Certamente, à medida que a média de aceleração tecnológica cresce, nós temos crescido mais dispostos a adotar novas formas -pense nos blogs, ninguém sabia o que eles eram há alguns anos e hoje há milhões deles. O efeito disso é que estamos nos tornando muito mais cientes dos efeitos colaterais psicológicos e sociais das novas tecnologias e novas formas de mídia. Se você viver toda a sua vida sob o domínio da TV, não notará como ela molda o mundo. Mas se mudar da televisão para a web e para sistemas de mensagens instantâneas, em dez anos começará a perceber como cada uma dessas mudanças tem seus efeitos secundários. Todos nós nos tornamos mcluhanitas hoje: não apenas porque nos lembramos do slogan ‘o meio é a mensagem’, mas porque os meios mudam em velocidades cada vez mais rápidas, o que torna seu impacto mais visível.
Folha - Você cita os programas de computador como um dos inúmeros exemplos de organização ‘bottom-up’. A internet e a computação pessoal já mudaram tudo?
Johnson - Estamos apenas começando a ver todos os efeitos. O desdobramento mais interessante nos EUA é a campanha altamente baseada na internet de Howard Dean, o principal concorrente do presidente Bush para a próxima eleição. Eles usaram um número de mecanismos descentralizados para criar uma organização do tipo ‘enxame’. Tenho bastante orgulho disso, pois algumas de suas idéias foram aparentemente inspiradas pelo meu livro. É bom ter um pequeno papel em um movimento histórico tão interessante.
Folha - Por que a internet ainda não se auto-organizou? Ou seria a lógica P2P (ponto-a-ponto) o início dessa organização?
Johnson - A internet propriamente dita não é auto-organizável, mas as coisas construídas sobre a internet estão começando a apresentar um comportamento de auto-organização. A forma como a Amazon organiza seus livros, através da tecnologia de filtragem -quando oferecem aquelas listas ‘pessoas que compraram este livro também compraram...’- é uma forma de classificação ‘bottom-up’. São as novas ferramentas que procuram as formas como os blogs se linkam entre si ou os serviços que classificam manchetes, como o Technorati e o Blogdex, que decidem o que é importante ao observar os links individuais criados pelos blogueiros -que agem de forma muito mais parecida com um enxame do que a web.
Folha - Você acredita que a internet pode ajudar a nos organizar?
Johnson - Ela está começando a se tornar uma ferramenta poderosa para grupos e pessoas com a mesma mentalidade se reunirem. O que vemos agora com a campanha de Howard Dean, por aqui -novos tipos de grupos, novos tipos de vizinhanças se formando graças à rede. É muito animador.
Folha - A doutrina Bush é uma reação à consciência em rede?
Johnson - Diria que é uma reação natural ‘contra’ essa consciência. Exatamente no momento em que se torna claro que o mundo está interconectado por formas incrivelmente profundas, surge esse desejo de assumir a abordagem de superpoder patife, basicamente dizendo ao mundo: ‘Ou vocês estão do nosso lado ou contra nós’. É deprimente. O terrorismo, contudo, é também um produto da era da emergência: grupos pequenos e espalhados com poder de fazer impérios poderosos de refém. Certa vez, ouvi o nosso secretário de Defesa, Donald Rumsfeld -que é um cara muito esperto, embora seja perigoso-, dizer que a guerra contra o terror era uma ‘guerra não-linear’ e que ele não tinha certeza se nossos cérebros ‘lineares’ poderiam entendê-la completamente. Foi um momento bem bizarro.
Folha - Qual o papel dos governos e países quando as pessoas desenvolverem redes pessoais e trabalharem em níveis comunitários?
Johnson - Creio que ainda há um papel para os líderes no mundo. A melhor mistura é uma combinação da lógica de baixo para cima (‘bottom-up’) com a de cima para baixo (‘top-down’). É o que há de genial na democracia. Todo mundo decide quem deve estar no comando. Se todo mundo estivesse decidindo tudo, você teria algo próximo de um verdadeiro estado anarquista -que seria interessante ver, mas que, suspeito, fracassaria no final.
EMERGÊNCIA: A DINÂMICA DE REDE EM FORMIGAS, CÉREBROS, CIDADES. De: Steve Johnson. Editora: Jorge Zahar. Quanto: R$ 38 (232 págs.)."
Escrito por guerrilhajardim às 17h08
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